Lembra do Tokio Hotel? Olha, como fã da banda, eu confesso que escrever essa frase faz meu coração doer – como se eles houvessem realmente sumido, como se eu nunca mais tivesse ouvido falar deles. Mas resolvi usar a frase mesmo assim, pra chamar atenção. Afinal, eu nunca deixei de acompanhar a carreira deles – mas eu sou fã, e sei que sou fã de uma banda que não é lá muito popular (pra não dizer “uma banda que é praticamente desconhecida”) no Brasil. O grande público jamais ouviu falar em Tokio Hotel. E quem ouviu (de modo geral, quem foi adolescente nos anos 2000, especialmente quem adorava uma banda emo) lembra basicamente do cabelo e da maquiagem do Bill – e acha que, sei lá, eles morreram. No mínimo, que eles morreram como músicos – e que hoje devem estar tocando suas vidas com alguma outra atividade qualquer.

Mas aqui no Brasil a gente não tem a menor noção de como o Tokio Hotel foi (e é, mesmo que muita gente tenha deixado de ouví-los – o status de celebridades eles mantém) grande na Europa: na França, eles bateram recorde de público com um show aos pés da Torre Eiffel, que reuniu um público de 500 mil pessoas – só pra comparar, o Rock in Rio que mais bombou, o de 2001, reuniu cerca de 180 mil pessoas por dia. A banda ganhou 260 discos de ouro e 63 de platina, e venceu mais de 100 premiações ao redor do mundo. E é importante lembrar: estamos falando de um grupo alemão, não de uma diva pop norte-americana – abrir espaço no mercado de música mundial é muito mais difícil para quem não vem dos mega aquecidos mercados dos Estados Unidos ou da Inglaterra. E, quando começou, em 2001, o Tokio Hotel era formado por quatro pirralhos tentando ser levados a sério no meio dos adultos – pior: quatro pirralhos cantando e falando alemão, que pouquíssima gente aqui por esses lados do Atlântico entende.

Por incrível que pareça, eles já sabiam sim o que estavam fazendo e o que queriam da vida – tanto que estão aí, dezesseis anos depois, ainda vivendo de música, e ainda com uma fanbase furiosamente apaixonada. Muita gente acabou ficando pelo caminho, é claro, e por motivos óbvios: Bill Kaulitz, Tom Kaulitz, Georg Listing e Gustav Schäfer cresceram e, como acontece com todo mundo, mudaram muito ao longo desses anos. Do pop-rock, passaram para um rock mais maduro e eletrônico, e no final se renderam ao pop com boas doses de eletrônico, música pra servir de trilha sonora pro esquenta e pra balada. Quem gostava do rock pode ter se decepcionado. Quem gostava do rock mas gosta mais ainda deles, apesar de não ser tão fã desse novo estilo mais festa (porque fã se apega, né, gente? confesso que é exatamente o meu caso), continua acompanhando, se apaixonando por algumas músicas enquanto desgosta das outras (não é só porque eu sou fã que eu sou cega, peraí). E quem nunca ouviu Tokio Hotel mas é chegado num pop pode, quem sabe, finalmente dar uma chance aos alemães nessa nova fase.

Vamos lá: na minha humilde opinião, Tokio Hotel nunca fez ROCK, assim, com letra maiúscula. Os dois primeiros álbuns, Schrei e Zimmer 483, eram daquele pop-rock que pegava mesmo o público adolescente, e funcionou maravilhas – ainda mais depois do lançamento de Scream, que reunia versões em inglês dos maiores sucessos desses dois primeiros discos, e que lançou de vez o grupo ao estrelato mundial. [antes que alguém diga que eu esqueci, há ainda o Schrei, So Laut Du Kannst, lançado em 2006 com as mesmas músicas de Schrei, regravadas após a mudança de voz de Bill – falei que eles eram uns pirralhos quando começaram] Até hoje, o Tokio Hotel é lembrado por alguns como “emo”, também por letras de músicas como Rescue Me e Don’t Jump, mas, principalmente, pelo estilo que Bill, o vocalista, usava na época: muita roupa preta, munhequeiras, maquiagem carregada, unhas pintadas e um cabelo que mais lembrava o do Goku, de Dragon Ball. Bill nunca escondeu que gosta mesmo é de chocar – mas a verdade é que ele é uma metamorfose ambulante: o cabelo que ficou na memória de quem conheceu a banda através da capa da revista Capricho, em 2009, na verdade nem durou tanto assim – virou moicano, ficou comprido, voltou a ser curto, ganhou topete, foi coberto por perucas, foi pintado de loiro, de rosa (e essa loucura toda chama ainda mais atenção ao lado do jeito mais largado de Tom, seu irmão gêmeo e guitarrista da banda, e do estilo mais básico de Georg e Gustav, respectivamente o baixista e o baterista). Bill está muito mais para glam do que para emo, gente.

A primeira grande mudança musical veio com Humanoid, de 2009: o trabalho veio meio pop rock, meio synthpop, meio eletrônico, com um som mais futurista, mais sombrio e definitivamente mais maduro. O piano (normalmente assinado por Tom) e o teclado (por Tom e Georg) foram incorporados às músicas e aos shows do grupo – foi nessa época que os singles Automatic e World Behind My Wall bombaram na MTV. Humanoid, aliás, foi lançado em duas versões: uma totalmente em alemão e uma totalmente em inglês – e a canção escolhida como faixa-título foi justamente aquela que permanece com a mesma grafia nos dois idiomas. Foi também nessa fase, em 2010, que o Tokio Hotel veio ao Brasil pela primeira vez: a estrutura da turnê era tão enorme que não pôde ser trazida ao Brasil (essa é outra característica da banda: shows que são verdadeiros espetáculos, seja para 500 mil ou 500 pessoas), mas mesmo assim a apresentação em São Paulo lotou e voltou a despertar a atenção dos brasileiros para a banda.

A pausa entre Humanoid e o próximo disco foi bem maior: Kings of Suburbia foi lançado apenas em 2014 – nesse intervalo, os integrantes do Tokio Hotel se dedicaram a projetos paralelos, como a participação dos gêmeos no reality show Deutschland sucht den Superstar. E outra grande mudança veio influenciar o som do grupo: Bill e Tom resolveram ir morar em Los Angeles, onde conseguem ter uma vida mais anônima – na Europa, como eu falei, eles são celebridades, e não conseguiam nem passear com os cachorros sem causar um alvoroço. A vida em LA trouxe novos ares, novos contatos, e fez Bill e Tom caírem no mundo noturno da cidade – e se apaixonarem de vez pela música eletrônica. Não pensem que aqui eu estou menosprezando Georg e Gustav de forma alguma, mas eles mesmos admitem que Bill é a alma do Tokio Hotel (escrevendo as letras das canções e definindo os rumos artísticos e visuais dos discos e shows), enquanto Tom é o cérebro (transformando em realidade as ideias do irmão e se responsabilizando pela produção e mixagem das músicas) – e é claro que os novos hábitos dos gêmeos influenciaram Kings of Suburbia, que veio mais pop do que nunca. Esse também foi o primeiro trabalho que o grupo gravou exclusivamente em inglês. Muitos fãs reclamaram da mudança (ou ficaram chocados com a orgia do clipe de Love Who Loves You Back, já que o Tokio Hotel sempre foi mais “comportado” nesse sentido – mas eu amei) , mas convenhamos – uma banda que passa 16 anos fazendo exatamente o mesmo tipo de música só pode ter alguma coisa meio errada. A turnê correspondente, a Feel It All Tour, foi a turnê do Tokio Hotel que passou por mais cidades até agora – foram 14 datas só nos Estados Unidos, 19 só na Rússia, além de vários outros países da Europa e da América Latina. O grupo veio novamente ao Brasil, para outro show em São Paulo.

Agora, o Tokio Hotel está prestes a lançar mais um álbum, intitulado Dream Machine – o disco sai no dia 3 de março, e a versão deluxe esgotou tão rápido na pré-venda que um novo lote foi disponibilizado. A sonoridade é similar à de Kings of Suburbia, pelo que é possível perceber pelos dois clipes já lançados: Something New (que eu, pessoalmente, achei um saco) e What If (que eu, pessoalmente, amei – ouvi o dia todo hoje). Paralelamente, Bill, sob o nome artístico BILLY, lançou um EP solo, I’m Not OK, que tem um estilo parecido – embora um pouco mais minimalista – com o dos últimos dois discos da banda, mas letras mais melancólicas e intropectivas: segundo o vocalista, as músicas narram a história real do fim de um relacionamento.

Então, como você pode ver, o Tokio Hotel está vivo e bem, obrigada. Bill, Tom, Georg e Gustav sempre atribuem a longevidade da banda ao fato de serem amigos de infância: eles se conhecem o suficiente para que cada um possa ocupar o espaço que deseja no grupo, ocupando funções específicas e que façam cada um deles confortável, sem guerras de ego. Mas o que eu acho mesmo é que grande parte do público pensar que o grupo não existe mais acaba, ironicamente, ajudando na sua sobrevivência: ser uma banda menos conhecida, com menos pressões para lançar um trabalho atrás do outro, é o que dá ao Tokio Hotel liberdade para fazer as coisas como quiser. E quando quiser.

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